Sou estudante da faculdade de Letras de uma Universidade Federal. Quer dizer, não sei se ainda sou, mas passei por 6 semestres e tive a oportunidade de estagiar por um ano e meio em uma escola particular.
Sempre tive um olhar muito crítico a cerca da educação brasileira. Ao ingressar em uma licenciatura esse meu olhar crítico se tornou bem mais rígido e porque também não dizer, cético.
Sempre me incomodou muito as manifestações de três anos pra cá do povo pedindo que o governo invista em educação. O povo brasileiro acha que o governo não investe em educação.
Concordo. Brasil está longe de ter realmente uma educação exemplar. Os investimentos são ínfimos, a formação de professores precária e escolas sem nenhuma estrutura decente para ter aulas. Mas são todas? Não. Por incrível que pareça, não são todas. E o número de escolas públicas, pelo menos na capital do Ceará, que funcionam adequadamente, com merenda, lousas, carteiras, inspetores e porteiros na porta é bem grande e é uma realidade constante, porém, não muito observada pelo grande público.
Ensinar em escola pública é tranquilo? Para alguns deve ser, para outros nem tanto. Sabemos da realidade dos alunos de escola pública que vivem à margem da sociedade. Mas não vou entrar no mérito de direitos humanos e educação para potenciais criminosos.
O ponto que quero abordar é o seguinte: hoje abri meu Facebook e apareceu como notícia principal que algum amigo meu curtiu, a seguinte imagem:
Eu não ia ler os comentários e entrar em discussão, mas achei um comentário de um homem, certamente de meia idade, revoltadíssimo com esse projeto de lei criado pelo senador Cristóvam Buarque (que até bem pouco tempo atrás estava sendo ovacionado pela população brasileira do Facebook por ser um homem que lutava pela educação do país e contra o regimento do governo). O homem, em seu comentário na página do Senado Federal, postou exatamente isso:
"Pelo amor de Deus, parem de criar leis estúpidas!!!!"
O Senado Federal criou um projeto de lei relacionado à educação, sem prejudicar nenhum aluno, protegendo os direitos dos estudantes e impondo maior conscientização dos pais de família para o caso, e a população recebe dessa forma. Inteligente, não é?
Só eu não me espantei?
Bom, o brasileiro é esforçado. Estuda bastante. Existe o abismo dos estudantes profissionais, para os que tentam ser e as adversidades do dia a dia não permitem, e para os que simplesmente não querem. Mas vamos por partes: se o senador Cristóvam criou esse projeto, é porque ele, como educador e professor, enxergou e viu como a educação brasileira é um sistema falido e não somente pelo investimento do governo, mas também por sua sociedade.
Aprendam, jovens, em uma democracia, todo direito emana do povo, é o povo que manda. Se o povo não acha importante a educação, o governo não fará nada mais que mandar migalhas para o seu povo. Em governos corruptos isso acontece muito, não sei se perceberam (hehe).
O mesmo homem que fez o comentário achando estúpida a criação do projeto de lei disse que achava absurdo o Estado mandar em sua liberdade de ir e vir e que na sua concepção, o Estado não deve se meter na educação do seu filho e que os pais devem ir às reuniões escolares se quiserem e não porque o Estado manda.
Genial, não é?
Então quer dizer que o Estado não deve se meter na educação do seu filho, que se formará cidadão dentro de alguns anos e que irá servir ao Estado com sua profissão em prol do crescimento do país, pois isso irá tirar a sua liberdade, mas em contrapartida o Estado tem a obrigação de dar educação?
Certo. Mas se na democracia, é o povo que escolhe seus representantes e luta para um país melhor, eu não acho certo um cidadão dizer que o projeto de lei em prol da educação seja de fato um ato estúpido. Vemos agora nas micaretas de manifestação cartazes pedindo "mais educação", mas o que de fato o povo quer? A educação básica está falida não é só por conta da falta de investimento do governo, mas também porque hoje os pais não podem, não querem, não conseguem, acompanhar o ritmo escolar dos filhos. Quem tem dinheiro, coloca o filho em várias atividades diárias e só o encontra de noite. Desses que têm dinheiro, a maioria consegue acompanhar, mesmo que capenga, o desenvolvimento escolar dele. Mas há muitos que não fazem isso. Os que não têm tanto dinheiro, fazem como pode. Na maioria das vezes não acompanha profundamente as notas dos filhos ou se vêem que está tudo bem nas notas, segue em frente sem maiores curiosidades sobre o andamento do filho na sua segunda casa. Os que vivem em total miséria não conseguem nem mesmo estar presentes. Pais pobres não podem dar educação exemplar para os filhos se eles nem mesmo tiveram. Uma fila de dominó, todos uma hora caem da mesma forma. Em um país onde até mais ou menos 100 anos atrás a educação era dada apenas a jovens ricos e homens, não podemos sequer de fato reclamar ou achar ruim porque uma família pobre que quase nunca tem comida na mesa, não possa dar uma educação decente ao filho.
Vale lembrar que uma família não pode exigir que um governo invista pesado em educação, se nem mesmo conseguem criar jovens decentes. Está muito comum de ver jovens que não lavam a louça, não lavam suas próprias calcinhas e cuecas e que nem mesmo sabem fazer coisas óbvias, como pesquisar alguma informação, ler um edital de concurso ou mexer em algum programa de computador. Pra mim, isso é uma das maiores falhas da educação caseira da sociedade brasileira. Pais que se vangloriam por filhos estarem numa faculdade, sendo que sequer conseguem arrumar o próprio quarto ou tomarem banho direito. Isso é secular, mas são costumes vindos ainda do império, quando os jovens ricos tinham suas ceroulas lavadas pelas escravas.
Dessa forma podemos ter noção da estrutura da família ou tutores dos jovens que hoje estão na escola. Pouco entendem o que de fato significa escola e conhecimento. Alguns acham que escola é depósito de filho alheio, outros acham que é fábrica de notas boas, se o aluno não tira nota boa, ele é um completo fracassado e há quem ache que não serve pra nada, como pude me deparar com comentários questionando a importância das reuniões de pais e mestres.
A educação do Brasil está completamente falida e não é por falta de investimento, é por falta de conhecimento. As pessoas não sabem nem cuidar de si mesmas e não se atentam que não têm condições de financiar um filho. Financiar, sim. Um filho é um financiamento e não um investimento. Na lei cristã, nós devemos procriar, mas nos dias de hoje, se você é alguém que vive para o trabalho, vai ter filho para qual necessidade? Se não tem tempo para criar um cidadão honrado, qual o sentido de tantos gastos para um futuro incerto?
A sociedade brasileira desde sempre, só que mais precisamente, desde 2013, exige a maior falácia, argumento demagógico, sem fundamento algum, que é a educação. O governo só pode oferecer educação de qualidade quando seus cidadãos passarem a usufruir de forma correta. Vemos o governo facilitando o ingresso de estudantes na universidade com o trunfo de terem estudado em escola pública, e vemos pais com receio de colocar seus lindos filhos nessas escolas para que eles não se misturem. Essas crianças têm medo de tirar notas ruins na escola atual e como punição irem para essas escolas públicas. Isso é a punição mais comum dada às crianças. Isso é verdade sim, eu tinha esse medo pois todo ano meu pai me ameaçava. Eu tinha medo de estudar com marginais e gente que poderia me bater por qualquer motivo. Pode até ter surtido efeito para outros jovens, mas não foi nada útil no fim das contas. A escola pública nunca poderá crescer em influência e status se o povo que a tem como obrigatoriedade do governo, não a usufrui. Hoje me arrependo de não ter estudado nelas. Fiz meu pai pagar escola pra nada, porque o que eu aprendi na escola onde estudei, poderia ter aprendido numa escola pública. O ensino é o mesmo, o conhecimento do professor é o mesmo, o que muda é a vontade de aprender.
Claro que podemos nos aprofundar mais na questão das escolas em si, da formação dos professores e na estrutura financeira das crianças e jovens, mas por ora, ficarei por aqui.
Eu tenho uma mágoa muito grande com o povo brasileiro, por seu pensamento mesquinho e vitimista e por achar que qualquer pessoa consegue estudar com a barriga roncando de fome. E saber que a cada dia que passa, mais pais irresponsáveis brotam nas secretarias das escolas, matriculando seus filhos.
"Ah, mas na Europa funciona assim e assado."
Pra Europa chegar onde chegou, a educação foi totalmente aproveitada por sua população e os pais não tratam seus filhos como bibelôs de geladeiras, mas sim, como pessoas que têm uma obrigação e precisam fazer por onde, e eles, os pais, têm papel fundamental nisso.
Achei mais que justo o projeto de lei e se eu fosse presidente, a questão educacional seria muito mais exigente.
